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Marcos Resende Dramaturgia

Marcos Resende Dramaturgia

Interpretação Errada - Catalano

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Ankito e Catalano 

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Este monólogo que era o "cavalo de batalha" do ator Humberto Catalano, por volta dos anos 40/50, perde o sentido quando não se conhece a gesticulação que o acompanha: o ritual de gestos que o padre usa ao celebrar uma missa. Ainda assim, optamos pela importância do registro. Com alguma imaginação talvez consigamos, ao ler, reconstituir todo o gestual indispensável.

ATOR
A gente, no decorrer dos anos, vê passagens engraçadíssimas, como esta por exemplo, entre o Manoel e a Maria. Casados há muitos anos — ela, muito religiosa. Mas, ele, indiferente a quaqlquer religião. Bom marido, trabalhador. Ela levou anos querendo convencê-lo a frequentar a igreja, assistir a uma missa com ela.

Certo dia, não sei porque, ele resolveu assistir a uma missa. Foi, até, sozinho, de surpresa, sem a mulher saber. E quando acabou, veio correndo para casa para até pedir perdão à mulher, por aquele tempo todo que não quis ouvi-la; porque ele gostou demais!

Mas, durante o seu trajeto, ele se encontrou com o compadre Joaquim e falou muito rapidamente, indo em direção à sua casa. E o Joaquim, então, o segurou: "Espera lá, que pressa é esta? Vamos conversar, homem! Que foi que aconteceu que estás com tanta pressa?

MANOEL
Não é pressa! É que eu quero chegar em casa para pedir perdão à minha mulher!


JOAQUIM
Perdão, por que? O que fizeste à minha comadre?

MANOEL
Não fiz, nada! Apenas, nunca a obedeci em assistir a uma missa. E como hoje fui
ver e gostei muito; além do perdão vou dizer a ela que irei todos os domingos! Tu sabes, ó Joaquim, que beleza é aquilo?

JOAQUIM
Eu não sei, não. Eu nunca fui!

MANOEL
Ah, nunca foste? Então, corre lá que agora tem a missa das 8, que vai ser uma beleza!

JOAQUIM
Não leves a mal, mas eu não gosto de ver coisas, sem eu ter conhecimento. Agora, se tu me contares mais ou menos, e eu gostar, eu prometo que irei agora mesmo!

ATOR
Então, o Manoel resolveu contar para o Joaquinm, no grande intelresse dele ir lá, mas, contou tudo dando uma interpretação daquilo que viu, ao seu modo: contando tudo errado!

MANOEL
 
Olhe cá, Joaquim: tu conheces a igreja ali da praça, não conheces? Muito que bem: tem aquelas escadinhas. Eu cheguei lá, subi as escadas. Quando eu cheguei lá, na frente de uma grande porta, tinha dois camaradas sentados no chão, ao lado da porta, um de cada lado, que me estenderam a mão. Então, eu disse: "Oh, raios, será que se paga entrada e a Maria não me avisou?". Eu, aí, dei um cruzeiro para cada um e eles disseram: "Deus lhe pague". Quer dizer: a entrada até que não foi cara.
Ah, Joaquim, assim que eu entrei, me deparei com um salão tão lindo, tão lindo! Com cada quadro de arte em volta do salão, que é uma beleza! No fundo lá do palco, muito bem iluminada, uma senhora bonita, com vestido azul e umas estrelinhas brancas, com um garotito ao colo! Um silêncio profundo! De repente, lá no palco, entrou um camarada alto, fantasiado de mulher. Ele veio também com dois garotinhos, fantasiados de mulher. Só que ele veio de blusa branca com uma saia preta — e os garotos com blusas brancas e saias encarnadas. E ele trazia também um chapeu quadrado, dourado, na cabeça. Todo mundo, na hora, se levantou — e ele mandou todo mundo sentar. Aí, ele começou a trabalhar: ele tirou o capeu, deu para o garoto. O garoto atravessou, deu o chapéu para o outro garoto. Ele virou-se para a gente disse: "Vou começar o trabalho". Aí, ele começou a fazer o serviço dele, lá. Todo mundo esperando. De repente, ele passou a mão na cabeça, não sei lá porque... Esqueceu-se... que tinha tirado o chapeu. Virou-se para o garoto e disse: "Viste o meu chapeu?". O garoto disse: "Não vi". "E tu, não viste, também?". "Também não vi". "Olha — diz o padre — perdi o chapeu! Não posso trabalhar!".

Aí, os garotos — e ele, também — começaram a procurar o chapeu por tudo quanto é lado, no palco. Um garoto levantou a saia dele para ver se estava embaixo, também não estava. E ele sempre dizendo: "enquanto eu não achar o chapeu, não posso trabalhar". Aí, ele disse assim: "Isto é um caso de polícia! Chame a polícia!". O garoto chamou numa campainha, duas, três vezes — a polícia não atendeu. "Olha, a polícia não vem! Sem o chapeu, eu não posso trabalhar! Sabes o número do telefone da polícia?". "Não, senhor, não sei". "Tu sabes?". "Também não sei". Então, ele vira para o centro e diz assim: "Me dá o catálogo de telefone!". Aí, ele pegou o catálogo e começou a procurar, procurar, procurar. Como estava escuro, passou para o lado de lá, que estava mais claro. "Não consta do catálogo. E eu não posso trabalhar, enquanto não achar o meu chapeu".

Aí, todo mundo começou a rezar; se ajoelhou e rezou pedindo a Deus para ele achar a chapeu e poder trabalhar. Mas, nada do chapeu aparecer. De repente, ele se lembroui: quem sabe tinha deixado num armariozinho que tem aí em cima. Aí, ele abriu o armário e encontrou um cálice de vinho. Aí, ele bebeu. Mas, bebeu escondo. Assim. Ninguém viu. "Olha aqui, não tinha nada, o copo está vazio!". E continuou dizendo que "sem encontrar o chapeu não posso trabalhar".

Aí, ele viu uma turma grande, que estava lá na primeira fila da sala, passando mal da barriga. Ele, muito delicado, foi lá e deu um sonrisal para cada um. "E tem paciência, que, enquanto eu não achar o chapeu, não posso trabalhar! (P/T) Agora eu pergunto: será que algum de vocês não pegou o chapeu e não quer me entregar?". 

E todo mundo começou a dizer: "Não fui eu que apanhei! Não fui eu que apanhei! Não fui eu que apanhei!".

 

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